02/01/12

Melhores Discos de 2011

1 - Girl In A Coma - Exits and All The Rest



Na resenha de Exits and All The Rest que o site NPR publicou quando divulgou a sua lista dos melhores 50 álbuns de 2011, escreveram que foi preciso uma década inteira para as meninas do Girl in a Coma transcenderem o seu som e se libertarem do estigma de "riot girl" imposta pelos críticos de música. É a mais pura verdade. Nunca sequer tinha escutado um ábum do trio texano de San Antonio e, quando batia o olhos nas suas fotos de divulgação, um preconceito irracional (sic) que associava as meninas à uma cultura "emo" me afastava cada vez mais. Foi preciso uma única audição do novo (e quarto!) disco para mudar radicalmente de opinião. O novo álbum é tão bom que parece um best of de uma banda veterana de rock. Enquanto «Exits and All The Rest» gira no player é como se estivéssemos perante uma regravação de «The Bends» (o 2º disco dos Radiohead) por um trio de meninas talentosas (ouça «Control» para entender) sem a mínima pretensão em exibir influências musicais ou criar algo de absolutamente original.
É um disco absurdamente simples mas é um disco com culhões - feito por três meninas na casa dos vinte anos -  e tocado com a paixão e o desespero de quem acredita que o mundo vai acabar amanhã.

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2 - St. Vincent - Strange Mercy


Ok, se você é uma das duas pessoas que vem aqui regularmente, você deve ter pensado "ih, lá vem ele de novo falando desse disco". Pois é, de novo. Não consigo esconder o meu entusiasmo pelo último disco de Annie Clark, a imensa multi-instrumentista por trás do St. Vincent. 
Tem algumas bandas que é ao vivo que provam se realmente valem o tempo gasto com elas ou não. Caso recente disso é o duo novaiorquino Cults. Hypado no último verão como a banda que ia salvar o planeta (naquela semana), ao vivo a banda é um completo desastre e deixa a mostra todas as suas limitações e fragilidades musicais. É como se todo o valor do (ótimo) disco de estreia fosse mérito apenas do produtor por trás dele. Nesse espectro musical, St Vincent está exatamente na outra ponta do retângulo. A cada disco que edita, Annie Clark se mostra mais talentosa que nunca e nos brinda com a sua música sofisticada e complexa mas de uma acessibilidade desconcertante. Clark passou por uma terrível depressão em 2010 (que descreve em «Year of The Tiger» faixa que fecha o disco) e o resultado disso é o irretocável «Strange Mercy», que têm dado trabalho aos críticos na hora de catalogar a sua música. E não é mesmo fácil etiqueta-lo: «Strange Mercy» transita entre uma pop experimental com pinceladas de folk de cabaré (!) misturados à coros de igreja (em falsetes) e alguns riffs de guitarra que ajudam na descontrução sonora do álbum. Como se a estranha beleza desse caldeirão de estilos não bastasse, Clark e a sua banda fabulosa consegue melhorar o disco ao vivo e nos elevar, nós pobres mortais, à um outro nível físico que é dificil explicar em palavras.

3 -  The Joy Formidable - The Big Roar



Esta banda imensa do País de Gales, formada em 2007, conta com apenas três membros para fazer aquela barulheira toda:  a loiríssima Ritzy Bryan na guitarra e nos vocais, Rhydian Dafydd no baixo e Matt Thomas na bateria.
The Big Roar é considerado o début da banda, mesmo eles já tendo lançado um mini-álbum em 2010 (escolha do Prepúcio entre os melhores de 2010) e recuperado algumas das canções deste para esta estreia "oficial". De qualquer forma, «The Big Roar» pode ser visto com uma continuação do anterior «A Balloon Called Moaning» onde as referências à Arcade Fire, Yeah Yeah Yeahs (ouça "while the Flies") e Broken Social Scene podem ser ouvidas com mais precisão. Um dos grandes discos do ano de uma pequena grande banda.


4 - Washed Out - Within and Without


Quando falei em 2009 do Washed Out e o seu maravilhoso EP de estreia aqui, não fazia ideia que o álbum de estreia iria ser tão bom. Pois é, Ernest Greene, o homem por trás das máquinas voltou em grande estilo: fez dos sintetizadores pura poesia e criou um dos discos mais lindos de 2011.
Que o digam as belíssimas canções «Far Away» e «Before» que já valem pelo álbum todo e que parecem uma continuação do «Life of Leisure». Within and Without remete aos "clássicos" do EP anterior, naquele clima de fim de tarde no litoral onde o por do sol deixa tudo mais luminoso e lúdico. É como se os Beach Boys tivessem lançado disco novo, sem o clima de festa (e de surf) mas com uma pitada de saudosismo e melancolia.

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5 - Balthazar - Applause





Quando vi os belgas do Balthazar pela primeira vez abrindo para os The Joy Formidable em abril desse ano, senti que já tinha cumprido a missão de 2011: descobrir uma banda nova que realmente valesse a pena investir. Os seis integrantes da banda são sublimes em palco, músicos excepcionais, dando o melhor de cada um como se fosse o último show das suas vidas. Parecia aquela banda canadense da qual eu não me canso de falar aqui e que fazem concertos maiores que a vida.
A comparação com Arcade Fire não é exagerada, os meninos (e menina) belgas - apesar da pouca idade e do parco currículo - sabem o que estão fazendo e criam música trabalhada ao pormenor: grandes canções pop, letras desesperadas, teclados de igreja e clima de culto: tudo registrado nesse album maravilhoso de estreia que é o Applause. Vá direto a «Blood Like Wine» para entender melhor o que eu estou falando.
E só espero que divulgação limitada do disco (não foi lançado nos EUA, por exemplo) não prejudique o futuro promissor desses meninos.





6 - Cults - Cults



Ao final de 2011, a estreia dos Cults soa quase que datada. Não é a toa, o disco (e a banda) foram tão incensados como a «next big thing» no último verão pela crítica e bloggers mundo afora que aquela aurea de música pop vintage das primeiras audições já não existe nem sombra. Outra razão pela qual esse disco quase não apareceu aqui foi uma apresentação ao vivo em Berlim que beirou o embaraçoso e me fez perder todo o tesão no disco. Ao vivo, Brian Oblivion e Madeline Follin - os mentores da banda - mostram todas as limitações que conseguiram esconder perfeitamente em estúdio. E pior, em cima do palco, têm carisma zero.
Porém - e é por causa dessa conjunção que este disco está aqui - Cults, o disco, foi uma das delícias pop que mais tocaram no meu media player em 2011. «Abducted» a faixa destruidora que abre o disco marca o ritmo de todas as outras seguintes: melodia catchy com letras pesadíssimas que falam sobre traição, relações de poder e ressentimentos amorosos num belo disco que mais parece uma regravação de sucessos dos anos 60. Um disco que durou um verão apenas, mas que foi muito bom enquanto durou.

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7 - PJ Harvey - Let England Shake





O problema do fã xiita é que - mesmo sendo fã incondicional de música - é difícil para ele administrar as elevadas expectativas a um determinado disco novo editado por sua banda favorita. Apesar de a frase estar na terceira pessoa, é exatamente nesse grupo que eu me encaixo. Fã obcecado de Polly Jean Harvey, nunca escondi minhas reservas em relação aos seus discos pós «Stories From The City Stories From The Sea». Sempre que a britânica anunciava disco novo, lá ficava eu nas expectativas de um "retorno às origens".
Pura ingenuidade, já que Polly já provou ser uma artista superior, sempre pronta a se reinventar a cada novo álbum. É o caso desse novo Let England Shake.
A exemplo do maravilhoso «Strange Mercy» de St Vincent, Polly fez (mais) um álbum conceitual, com os conflitos da guerra como pano de fundo e falando de política de forma visceral (e literal) como nunca fez antes. O meu choque inicial foi tanto que rejeitei o disco imediatamente, foram preciso várias audições - lentas e minuciosas - prestando atenção a cada detalhe, para entender a beleza absurda desse «Let England Shake».

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8 - MEN - Talk About Body



Do que restou das saudosas Le Tigre, a multinstrumentalista JD Samson aproveitou e criou o trio MEN. Um projeto que é quase uma banda, se não fosse as constantes mudanças de elenco. O ativismo político e a postura feminista continuam muito mais afiados nas letras que antes, só que agora saem as guitarras para dar mais protagonismo aos sintetizadores e as programações eletrônicas. Da mistura do electro dos anos 90's ao synth pop dos oitentas, o projeto se estreia com um discão pop de fazer animar qualquer festa. Que o diga os hits «Off Our Backs», «Credit Card Babies» e a minha preferida «Simultaneously». Talk About Body é um disco político e de puro deboche mas cheio de canções pop lapidadas à perfeição por uma one woman show sempre pronta a nos surpreender.



9 - Metronomy - English Riviera





E ao terceiro álbum fez-se a luz. Depois de dois discos (medianos) razoavelmente elogiados pela crítica, o quarteto de Brighton Metronomy faz um disco irresistível com sabor de dias ensolarados. Literalmente. É só dar uma olhada na capa do disco que sintetiza todo ele: fresco, original e de uma simplicidade absurda. A mudança de membros da banda da sua formação original desde o último disco (de 2008) parece que fez muito bem a eles. English Riviera celebra o amor em todas as suas formas, especialmente aqueles que só duram um verão. O álbum abre com sons de violinos e barulhos de pássaros numa típica tarde de pôr do sol e acaba com «Love Underlined» onde a paixão imediata (while we're holding hands tonight/ We're still in love underlined) é o que importa. Se isso tudo já não bastasse, o disco ainda tem a lindas «The Look», «The Bay» e «Everything Goes My Way» para ouvir no repeat zilhões de vezes como se não houvesse amanhã.

10 - The Pains of Being Pure at Heart - Belong





Tenho que confessar que são poucas as bandas de shoegaze que realmente despertam a minha atenção. Sei que é meio reducionista etiquetar uma banda com um gênero tão limitador, mas desde a sua elogiada estreia em 2009 os The Pains Of Being Pure At Heart eram sempre jogados na gaveta do shoegaze e fez a festa dos fanáticos por Jesus & Mary Chain. O novo disco Belong foi uma espécie de divisor de águas: decepcionou muitos fãs (que acusaram a banda de popularizar o seu som) e ganhou outros tantos. Eu incluído. Claro que as referências à banda dos irmãos Reid e aos My Bloody Valentine continuam lá mas também tem Smashing Pumpkins de «Gish» (ouça a fabulosa «Belong»), tem Smiths («Heart in Your Heartbreak») e algum pós punk dos anos 80. Os The Pains Of Being Pure At Heart saíram do gueto para ganharem o mundo. E esperamos que de lá nunca mais saiam.


Menção Honrosa: The Rapture - In The Grace Of Your Love






4 comentários:

Gabriel disse...

Com The Raptures e Washed Out na lista, mereceu atenção.
Vou ouvir com cuidado.

Wellington Almeida disse...

Fiorébis, é você rapá?

gonn1000 disse...

Girl in a Coma é banda para eu gostar? Pela descrição, parece que sim... Mas St. Vincent passa-me ao lado, assim como Washed Out ou Pains. Vi The Joy Formidable em Paredes de Coura e achei apenas simpático (idem para Metronomy). Maaaas concordo com PJ Harvey e MEN :) Ouviste EMA e Austra? Bom ano, Wellvis

Wellington Almeida disse...

Gonçalo: acho que Girl in a Coma não é muito "banda para você gostar" não :P mas tenta, vai que você se torna fã como eu?! O disco me lembra muuuuuuito o "The Bends"! Eu vi a sua lista e, como sempre, temos nossas discordâncias. Por exemplo, jamais incluiria o disco chatíssimo da Lykke Li num top meu! Gosto moderadamente do disco da Austra (e até vi ao vivo este ano num festival) e quase incluí uma música do disco no meu top músicas. Mas acho um disco meio "frio" quase sem emoção e por isso ficou de fora. Abraço!